Um Garotinho Vai para o Céu

Um garotinho bateu à porta do paraíso e quando São Pedro chegou, ele pediu permissão para entrar. São Pedro disse-lhe para esperar um pouco, enquanto ia consultar Deus. Enquanto esperava, o menino olhou em volta, para a ampla paisagem que o rodeava. Como era fim de outono, as árvores estavam cobertas com folhas douradas, avermelhadas, alaranjadas e verdes. Até onde o olhar podia alcançar, havia árvores fulgurantes, umas atrás das outras, colinas e colinas de beleza flamejante.
São Pedro então retornou.
- Eu tenho a resposta de Deus. Você vê todas aquelas árvores? - e mostrou com a mão 360 graus no horizonte.
O garotinho respondeu:
- Sim.
Pedro continuou:
- Deus disse que, quando as folhas tiverem caído dessas árvores tantas vezes quanto há folhas nas árvores, você poderá entrar no paraíso.
O garotinho sentou-se sem pressa e, olhando para São Pedro, disse-lhe:
-Por favor, diga a Deus que a primeira folha já caiu.

Extraído do livro A prática do Zen de Albert Low
Fonte: Flávio Capllonch Cardoso - Grupo Shunya de Estudos Budistas

 

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Fabula de la sirena y los borrachos - Pablo Neruda






Fábula da Sereia e os Bêbados

Todos estes senhores estavam lá dentro
quando ela entrou completamente nua
eles haviam bebido e começaram a cuspir sobre ela
ela não entendia nada, recém saída do rio
era uma sereia que havia se extraviado
os insultos corriam sobre sua carne lisa
a imundície cobriu seus peitos de ouro
ela não sabia chorar, por isso não chorava
não sabia vestir-se, por isso não se vestia
tatuaram-na com cigarros e tições
e riam até cair no chão da taverna
ela não falava porque não sabia falar
seus olhos tinham a cor de um amor distante
seus braços feitos de topázios gêmeos
seus lábios se cortaram na luz do coral
rápida ela saiu por essa porta
bastou entrar no riu e estava limpa
reluziu como uma pedra branca na chuva
e sem olhar para trás nadou de novo
nadou para nunca mais para morrer

Versão de Eduardo Miranda. Do livro "Estravagario".
OBS.: Não conheço a fonte da imagem.

 

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Pablo Neruda - Poema 15



Poema 15

Gosto quando te calas porque pareces ausente
e me ouves de tão longe, e minha voz não te toca.
Parece que teus olhos fugiram de ti
e parece que um beijo cerrou tua boca

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerges das coisas, cheia de alma minha.
Borboleta do sonho, te pareces com minha alma
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto quando te calas e pareces ausente.
E pareces te queixar, cantiga de mariposa.
E me ouves de tão longe, e minha voz não te alcança:
Deixe que me cale com o teu silêncio.

Deixe que eu te fale, também, com teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e estrelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longínquo e tão ingênuo.

Gosto quando te calas porque pareces ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra, então, um sorriso, bastam.
E estou alegre, alegre por não ter certeza disso.

Versão: Eduardo Miranda. Do Livro "Vinte Poemas de Amor e um Canção Desesperada".


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